Bardo Thodol
Acontece é coisa nessa vida, na mesma proporção que não acontece.
Novembro foi puxado. Comecei na esperança de oferecer a Exu o movimento. Um único dia tentando me comprometer com o necessário para continuar de pé e voltar a ser minimamente funcional me quebrou por dias. Fiquei uma semana inteira tentando completar um mínimo raciocínio e simplesmente não tive sucesso. E aqui não tô usando figuras de linguagem: qualquer pergunta feita a mim tinha uma única resposta. "NÃO SEI". "Como frita um ovo?" "NÃO SEI", "O que vai querer fazer quando conseguir levantar?" "NÃO SEI", "Você sabe andar?" "NÃO SEI".
A terapia aventou algumas hipóteses dolorosas que chegam a um unico resultado: isso é o que torna o TEA potencialmente incapacitante. Depois de eu não entender os limites, meu cérebro simplesmente se limitou. Não confia mais. Aparentemente um terço da minha vida eu vivo com nível de suporte mais alto do que a vida me proporcionou. Estava de luto agora pela minha independência. Realizar isso tem sido absurdo e fora de propósito. Enfim, agora estou voltando a andar, tentando diminuir a minha expectativa de normalidade. Essa aí tá fora de cogitação e eu preciso admitir pra mim mesma. E AINDA NÃO CONSIGO. MERDA.
No meio disso, perdi oficialmente a chance de fazer algo pela minha avó paterna. Há quase duas décadas o cérebro dela desistiu de vez, e o declínio de seu corpo foi gradativo e particularmente triste. No vocabulário popular, "ela, enfim, descansou". Estar perto ou longe dela era doloroso na mesma proporção, porque eu SABIA que a depressão na qual o cérebro dela estava mergulhado desde os 23 anos de idade era a mesma que me acompanha desde os 29,e vê-la naquele estado era vislumbrar um futuro sombrio e particularmente solitário. Enterrá-la foi um evento único, com o qual eu inevitavelmente me identificava. Fiquei suando gelado por 2 dias, e meu sensorial está estragado até agora. Pra melhorar, o passado da minha família veio como um tsunami de bosta e eu tive que baixar a bola e a guarda com meu pai. O natal ainda vai ser sem mim, mas as coisas ficaram mais contextualizadas, infelizmente não menos dolorosas. A dor só mudou de cara.
No meio disso, perdi oficialmente a chance de fazer algo pela minha avó paterna. Há quase duas décadas o cérebro dela desistiu de vez, e o declínio de seu corpo foi gradativo e particularmente triste. No vocabulário popular, "ela, enfim, descansou". Estar perto ou longe dela era doloroso na mesma proporção, porque eu SABIA que a depressão na qual o cérebro dela estava mergulhado desde os 23 anos de idade era a mesma que me acompanha desde os 29,e vê-la naquele estado era vislumbrar um futuro sombrio e particularmente solitário. Enterrá-la foi um evento único, com o qual eu inevitavelmente me identificava. Fiquei suando gelado por 2 dias, e meu sensorial está estragado até agora. Pra melhorar, o passado da minha família veio como um tsunami de bosta e eu tive que baixar a bola e a guarda com meu pai. O natal ainda vai ser sem mim, mas as coisas ficaram mais contextualizadas, infelizmente não menos dolorosas. A dor só mudou de cara.
Tô cansada de morte, bicho. Tô cansada de falar de morte, ao mesmo tempo que pra onde quer que eu olhe ela está lá. Iku fica sussurrando baixinho coisas que em algum momento quis ouvir, agora só quero que cale a boca.
Foda-se. O corpo respira, funciona (ainda que de forma precária), e quero deixar esse assunto de lado. Ainda não sei como, mas darei meus pulos.
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