E se um ônibus de dois andar nos esbagaçar???



Ontem e hoje, depois de dias sem conseguir parar de chorar profusamente, resolvi sair da toca, rumo ao extremo oposto da cidade, para me enfiar no berço de todos os meus traumas. Minha mãe ainda me oferece algum tipo de conforto, e eu, depois de 44 anos tentando resolver meus daddy issues (os reais), enfim descobri e resolvi dar essa resposta final a todo melodrama no qual estive inserida todo esse tempo: meu pai me odeia. 

Não que seja novidade, muito pelo contrário: se tem alguma certeza que carrego na minha vida é que meu genitor tem ranço de mim, e sempre que pode, faz questão de manifestar esse carinho reverso. Foi assim logo que precisei sair da clínica psiquiátrica (cedo e ao mesmo tempo tarde demais), quando minha família achou que seria saudável me enfiar num apartamento obscuro em uma praia em Saquarema com essas duas crianças que me colocaram no mundo. Ela, filha de oxum que teima em carregar sua doçura e sonsice que me enternece e emputece ao mesmo tempo, sempre foi a amiga que eu queria, mas raras as vezes foi a mãe que precisei. Ele, um hedonista frustrado pela eterna falta de grana e pela paternidade precoce (além de mulher, dei a “sorte” de inaugurar a pequena fila de filhos que esses dois tiveram nesses 46 anos de união), tem sua sanidade esvaída por uma quantidade generosa de álcool que nem a saúde de bosta que esse prego tem o impede de consumir.

Naquela oportunidade, em 2023, ele passou cinco dias testando vários modos instintivos (e agora tenho quase certeza que conscientemente) de me enfiar de novo no hospício. Hoje, sem a menor cerimônia, quase sussurrando, no meio de seu delirium tremens – quem me dera, ah, meu Deus, fosse esse mesmo o caso – ele me mandou eu me foder, com todas as palavras na ordem certa, precisa e coesa. Depois saiu quase que saltitando como se as palavras dele não tivessem sido registradas por ninguém. Num momento eu poderia jurar que seria possível esperar a chuva do dia passar e ir pra casa no dia seguinte... Iria ficar exausta num nível que agarraria meu travesseiro me contorcendo? Muito possivelmente, mas teria aproveitado da sensação de nostalgia que parecia se instalar ali e dar harmonia ao momento.

O que não tardou em se mostrar o momento Marcely delusional número 1.598: a cachaça – infelizmente livre de metanol ou qualquer agente venenoso que resolvesse definitivamente a questão – arruinou completamente o clima pré almoço, dando lugar a muito gaslight que pateticamente sequer fazia sentido, num apanhado de ofensas soltas proferidas ao vento. Mas a frase “vai se foder” estava lá, transparente tal como um “SUA PIRANHA” gritado bem alto na sala da casa em que morávamos, horas antes de eu começar a me envolver romanticamente com meu esposo, e meses depois de ter sido estuprada de forma violenta, após um “boa noite cinderela” (e sim, esse é o motivo pelo qual ele encheu a boca pra me chamar de piranha: sua crença pessoal que eu, desacordada, fui responsável pela violência que sofri). Ajeitei minhas coisas rapidamente e fiz questão de zarpar dali o mais rápido que pude. O Uber não demorou a me trazer pra perto da minha cachorrinha, mas percebi logo que estava acabada, incapaz de me comunicar com pessoas de forma eficiente e incapaz também de parar chorar. DE NOVO ESSA MERDA.

Marido graças a Exu está tendo uma resposta melhor ao medicamento de TDAH que ambos tomam, e conseguiu fazer um banimento espiritual na casa, pra garantir que o ar do nosso ambiente de convivência não fique mais irrespirável do que eu já sentia. Minha autoconfiança sobre escutar a voz dos meus guias já vinha bem prejudicada, deu uma guinada pra baixo também nos últimos dias. 

Engraçado que eu tenho falhado miseravelmente em todos meus testes de fé, e olha que, como disse minha iyalorixá, tô chorando de barriga cheia (o que me faz lembrar das grandezas irrelevantes da física e do dilema da mandioca e do universo, mas seguimos). Tô devendo pra Deus e o mundo, mas tenho que agradecer pq o pão e o teto não faltaram, e entre mortos e feridos, por enquanto todos nos salvamos. 

O que não me impediu de abrir a caixa de pandora de ressentimentos que tenho, que torna minha metralhadora de mágoas numa bazuca de azedume, após ver um clipe do Smiths de 
There's a Light that Never Goes Out, com um recorte de 500 days of Summer. É um filme que me assombra, pois sempre tive o Tom como meu ideal masculino, e, obviamente nunca fui Summer: mulher negra gorda e periférica, que cresceu nos anos 90 ouvindo que seu cabelo não é bonito, que “não devia romantizar ser gorda”, e mais o sem-número de falácias que sustentam o mundo que nesse exato momento revive a “moda heroin chic” sem o menor pudor. E pra melhorar esse festival de merda no qual tô inserida, essa foi a “chamada” pro meu cérebro totalmente fodido lembrar das pequenas humilhações que passei na minha vida amorosa. Algumas delas patrocinadas pelo meu próprio esposo, que queria me guardar num potinho de opções quando já tinha escolhido sua Summer com quem queria realmente passar seus 500 dias. Mas recolhi a bazuca que já estava em riste e agora estou aqui escrevendo para ninguém ler. O sono ainda não fez com que o sapo/mandioca entalado na garganta descesse. Cá estou eu de novo recitando meus dramas pra ninguém. Com sorte meu cunhado (meu vigésimo segundo grande algoz) não descobre esse espaço e usa ele contra mim.

Boa noite pra quem é de boa noite. Bom dia pra quem é de bom dia. E boa semana pra quem não tem o objetivo claro de enlouquecer ninguém.

 

(Em tempo: com o passar dos anos, aprendi a ter desprezo forte pela figura do Tom, esperando que homens assim feneçam lenta e dolorosamente. FODA-SE, tô com ódio)

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